Resenha: O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick (por Álvaro Domingues)

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Estamos nos anos 60. A Guerra Fria é o pano de fundo para a ação. Há espiões, refugiados políticos, pessoas separadas por uma fronteira imposta num país dividido. A esperança está num livro que mostra como tudo isto pode ser diferente: O Gafanhoto torna-se pesado.

Um romance de espionagem à 007? Como tudo que Philip Dick escreve, parece, mas não é. Há uma diferença: o país dividido são os Estados Unidos e a Guerra Fria é entre Japão e Alemanha.

Trata-se de uma realidade alternativa onde os países do Eixo ganharam a Segunda Guerra Mundial. O Estados Unidos, derrotados são divididos entre os japoneses, que tem uma postura mais aberta e os alemães, que mantém sua política de extermínio aos judeus e seu expansionismo bélico.

Paralelamente, um escritor de ficção científica americano escreve um romance alternativo (O Gafanhoto torna-se pesado) onde descreve uma realidade em que os Aliados ganham a guerra e impõe uma derrota ao Eixo.

Pode-se considerar este romance como precursor do gênero do steampunk, da mesma forma que Blade Runner (também de Phlip Dick) é precursor do cyberpunk. Porém, eu prefiro considerar que este é um romance de ficção científica onde a ciência é a História.

Um importante personagem é o onipresente I Ching, o Livro da Mutações, o oráculo milenar chinês. Como parte da dominação cultural japonesa, o I Ching aparece muitas vezes nas mãos de personagens das mais diversas etnias, apontando os rumos dos acontecimentos, dando conselhos não muito claros, mas que influenciam muitas decisões.

O I Ching tem o mesmo problema das analises históricas: tudo se encaixa quando analisamos retrospectivamente, depois que a profecia aconteceu, ou quando contamos a História passada do ponto de vista presente. Uma saída para este impasse é uma fazermos uma analise dentro dos conceitos de História Contrafatual: “o que aconteceria se…” É o que faz Philip Dick neste romance, e o I Ching não está ali por acaso, como para nos lembrar do vício de raciocínio das análises históricas tradicionais.

Considerado por muitos como o melhor romance de Philip Dick, O Homem do Castelo Alto é uma leitura divertida e intrigante, deixando-nos com uma sensação de estranhamento nos acompanha muito tempo após a sua leitura.

O Homem do Castelo Alto
Autor: Philip K. Dick
Editora: Aleph
Ano: 2006
Páginas: 300

(resenha originalmente publicada em 26/04/2010 em http://blogdopainerd.blogspot.com)