Resenha: Fábulas do Tempo e da Eternidade, de Cristina Lasaitis (por Álvaro Domingues)

fabulas2_capa_frenteSinopse: Em doze contos, misturando os gêneros ficção científica e fantástico, a Cristina Lasaitis conta histórias que tem por pano de fundo o Tempo e a Eternidade. Ao ler os primeiros parágrafos deste livro, temos a sensação de que a autora tem um domínio muito grande de sua ferramenta principal: a linguagem. Seu texto parece poesia, trabalhando cenas, diálogos, personagens e sensações muito bem.

E também demonstra ser igualmente hábil nos dois outros quesitos pra se fazer uma boa ficção científica: saber escrever uma boa história e ter um bom conhecimento científico.

Como o tema é “tempo e eternidade”, o sumário é uma representação gráfica de um relógio. Começando às 1h00, com um conto sobre a internet: “Além do Invisível”. Parece que ela fez de propósito pra contrariar minha crônica no Pai Nerd, onde afirmo que não há boas histórias sobre a internet na literatura clássica de FC. A autora sabe o que faz! Constrói um enredo sobre o relacionamento entre duas pessoas no mundo virtual, com delicadeza, com sutileza e com um final surpreendente.

Às 2h00, aparece o conto, “As Asas do Inca”, onde somos levados para o império pré-colombiano, às vésperas da invasão espanhola, demonstrando um outro domínio: o dos mitos e lendas do povo Inca. Novamente a linguagem brilha.

Às 3h00, “Nascidos das Profundezas”, onde descobrimos que o desconhecido pode estar debaixo de nosso narizes. E o futuro pode estar no passado.

Às 4h00, “Revés Alquímico”, num campus de uma universidade com os problemas típicos de uma instituição de ensino do Brasil: falta de verbas, professores dedicados mas pouco valorizados, etc., um velho professor se dedica a uma pesquisa bem pessoal. Quem estudou Química em uma universidade pública vai se sentir em casa.

Às 5h00, “Assassinando o Tempo”, onde aparece a personagem Cláudia Mansilha, muito bem construída pela autora. Neste conto o tema “tempo e eternidade” aparece com mais força e cercado por uma verossímil teoria física, mostrando que Cristina Lasaitis é realmente uma escritora de ficção científica que merece este nome, pois consegue transitar tanto pela ficção científica soft quando pela hard.

Às 6h00, “A Outra Metade” nos leva novamente ao fantástico, num bem-construído conto sobre almas gêmeas.

Às 7h00, “Viagem Além do Absoluto”, mostra uma outra faceta da FC, a cosmogonia, um conto que tem como pano de fundo o cosmos em seus últimos instantes. O nome do conto poderia ser “Enquanto houver Aurora”, uma frase que aparece algumas vezes no texto, o que seria muito mais poético.

Às 8h00, em “De Onde Viemos, para Onde Vamos”, velhos intelectuais fracassados se reúnem num café, discutindo filosofia diante de um ouvinte privilegiado. Um conto de FC que toca o fantástico, onde a ciência é a Filosofia.

Às 9h00, “Irmãos Siameses”, um texto que também resvala no fantástico, nos conta a vida de dois irmãos que não podem se separar. As ciências que servem de apoio são a medicina e a psicologia. Uma boa história dramática, que certamente pode arrancar algumas lágrimas dos mais sensíveis.

Às 10h00, “Caçadores de Anjos”, nos remete à Idade Média e à Inquisição, onde nem os anjos eram poupados da fogueira.

Às 11h00, “Os Parênteses da Eternidade”, onde um correio entre épocas permite uma conversa de alguém do presente com que ainda não nasceu. A dra. Mansilha é citada mais uma vez, mas apenas para ligar esta história com “Assassinando o Tempo”. O lado humano da ficção hard.

E, finalmente, à meia noite, fechando o volume, o conto “Meia Noite”, onde o tema internet é retomado no mesmo universo do primeiro conto, fechando o que ali foi aberto.

No geral, Fábulas do Tempo e da Eternidade é um livro excelente, mostrando versatilidade da autora, que não deixa de ser brasileira para ser universal.

Fábulas do Tempo e da Eternidade
Autor: Cristina Lasaitis
Editora: Tarja
Páginas: 174
Ano: 2008

(resenha originalmente publicada em 27/03/2010 em http://blogdopainerd.blogspot.com)