Resenha: A Cidade Conhecia as Trevas (Por Sid Castro)

Anjo de Dor, de Roberto Causo
Selo Pentagrama
Devir – São Paulo

Como literatura de gênero, o terror tem uma história bem diferenciada no Brasil. Se em algumas artes, como cinema, ele praticamente se resume ao cult e internacionalmente conhecido Zé do Caixão, nos quadrinhos a história é outra. Beneficiado pela censura editorial do gênero nos Estados Unidos, durante os anos 50/60, os autores nacionais encontraram um nicho de mercado, através de inúmeras revistas de pequenas editoras. Com a crise atual das HQs, esse espaço desapareceu, e praticamente toda produção nacional se afunilou (em todos os gêneros, salvo exceções) nas pequenas tiragens de publicações independentes ou romances gráficos para livrarias e lojas de quadrinhos.

Na literatura, entretanto, nunca tivemos senão obras esporádicas e de pouca projeção dentro do gênero. Apenas recentemente, impulsionado pelo “bum” da literatura fantástica (ai incluídas a ficção científica e a fantasia) o terror, como literatura de gênero, tomou novo fôlego. Nesse caso, temos até um autor “best seller”, André Vianco, a partir do livro Os Sete, sobre vampiros coloniais portugueses nos dias atuais. Escritores como Kizzy Ysatis, Giulia Moon, Martha Argel e Nazareth Fonseca, entre outros, desenvolveram contribuições particulares para o terror. Mas fora do tema vampiro, pouca coisa tem aparecido, a maioria em antologias temáticas e quadrinhos.

Uma dessas exceções talvez seja o selo Pentagrama, lançado pela Devir, de São Paulo, que poderia oferecer novidades além do mundo pop dos sugadores de pescoços. A coleção, entretanto, parece ter descontinuado, como outras, após a morte do fundador da editora, Douglas Quinta Reis.

Anjo de Dor, de Roberto Causo, foi o primeiro lançamento do selo (em 2009) e, por si só, demonstrou ser uma obra relevante e fora do tom dominante como terror.

ANJO DE DOR

Mais conhecido como autor de FC hard e militar, essa não é a primeira incursão de Roberto Causo pelo terror. A Dança das Sombras (Caminho Ficção Científica, 1999, Portugal), seu primeiro livro de contos, além de alguns outros contos publicados de forma esporádica: “O Bêbado de Pancada” (encontro com o anjo da morte), “Os Fantasmas da Serra” (horror cósmico), “Trem de Consequências” (encontro com o diabo) e “Parada 93” (uma história de fantasmas), entre outros. O mais recente exemplo talvez seja “Um toque do real: óleo sobre tela”, publicado em Imaginários 1 (Draco), que está mais para a fantasia, mas que tem algum ponto de contato com o livro aqui resenhado, Anjo de Dor. No conto da Imaginários, pode-se reconhecer o estilo do autor, a começar pelo lado autobiográfico (pelo menos em parte), como também aconteceu em seu livro seguinte, Selva Brasil (Draco, 2010).

O protagonista de Anjo de Dor é Ricardo Conte, uma espécie de alter ego do escritor (para quem o conhece, isso fica evidente, para começar, pelo nome com iniciais e número igual de caracteres). Tanto, que me foi difícil visualizar o protagonista com outro rosto senão o do próprio autor; isto, para quem o conhece, para os demais leitores tal solução não interfere na leitura. Além disso, o personagem também vive em Sumaré, cidade interiorana em que nasceu Causo (que agora vive na capital do Estado).

Se por um lado, isso facilita na verossimilhança da ambientação da história no tempo e no espaço (praticamente lembranças e referências do autor nos anos 90), de outro torna o começo do romance um tanto lento, para quem não tem familiaridade com a cidade. Essa parte do livro parece sintonizada com o mainstream literário (literalmente, a corrente “principal” da literatura, algo assim como sua parte “séria”, adjetivo que os cadernos culturais normalmente não associam à literatura de gênero). Inclusive um típico linguajar coloquial “caipira” é reproduzido.

Aos poucos, no entanto, vão surgindo pequenos fragmentos de fantástico ou insólito, algo ainda muito mais ligado ao misticismo e religiosidade comuns à maioria dos brasileiros, mas que não tem, aparentemente, uma ligação direta com a trama.

A personagem principal do romance, entretanto, entra em cena logo: Sheila Fernandes, uma cantora de barzinhos, de passado tão dúbio quanto obscuro, meio que entrando em decadência, mas ainda talentosa. Ela vem para trabalhar na Flicks, a casa noturna em que o abstêmio Ricardo é barman. Logo se estabelece um clima de atração/repulsão entre ambos, que será o foco dramático da história.

Dessa relação vem o título do livro, Anjo de Dor – em que um espectro feito à imagem e semelhança da cantora –, atormenta as noites do barman, seduz e se torna o “élan” sobrenatural da história.

Não fica bem definida a natureza desse anjo (ou demônio), podendo ser desde uma forma de ectoplasma emulada pelo subconsciente de Ricardo ou Sheila, ou ambos, quanto um avantesma ou súcubo, como às vezes parece, exteriorizando todo o passado forte da moça; em todo caso, ele toma forma a partir da arte do barman, num quadro, o que nos leva, novamente, ao conto do Causo antes mencionado, do primeiro Imaginários, “Um toque do real: óleo sobre tela”.

Mas enfim, o passado bate à porta, por conta de uma ilustração feita pelo mesmo Ricardo para um anúncio sobre a cantora, publicada em jornal de outra cidade. A história toma contornos de ação e violência com a chegada do vilão, Ferreirinha (confesso que achei o nome pouco assustador… – talvez por que evoque algum nome de comediante popular ou dupla sertaneja) e seus asseclas.

A partir daí a história vai entrando num crescendo de ação e violência, que culmina com a sequência em um moinho (o Moinho Velho, lugar ao que parece, real em Sumaré) perfeito cenário para um clímax temático digno de uma boa história de terror.

Talvez o romance seja o trabalho de Roberto Causo com personagens mais bem trabalhados psicológica e fisicamente – principalmente Sheila, com suas nuances de ódio e amor, prazer e dor, beleza e medo – transfigurados na figura do Anjo de Dor.

O projeto gráfico do livro, muito bem feito, como geralmente é a maioria das edições da Devir, destaca-se pela bela capa pintada, da autoria de Vagner Vargas.

Ao contrário da Pulsar, selo de ficção científica da Devir, organizado pelo mesmo Causo, que já conta com vários títulos, a coleção Pentagrama está no começo e, segundo próprio autor, teria pelo menos um título novo sendo preparado para publicação – o romance “The Jewell of the Seven Stars” (1912), de Bram Stoker, o criador de Drácula, o que até o momento não aconteceu (2019). A edição contará com as duas versões de final, com que o romance foi publicado. É um dos livros que inspiraram o ciclo de histórias de múmia no cinema.

Outro selo temático da editora, Quymera, sobre fantasia, também já teve publicado seu primeiro e único volume, a coletânea Rumo à Fantasia. A editora também publica a coleção de contos clássicos brasileiros do fantástico e ficção científica, organizada pelo próprio autor, com as antologias Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica (2008) e Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica: Fronteiras (2010); também não se sabe se a coleção, uma das mais importantes no resgate e valorização da FCB, continuará.

SERVIÇO

anjo_de_dor_livroAnjo de Dor
Autor: Roberto de Sousa Causo
Páginas: 210 PB em papel off-set 90 g/m²
Arte da capa: Vagner Vargas

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