Conto: Destino 2.0 (Por Gilson Luis Da Cunha)

Faço isso há quase um século. E estou cansado. Não que eu conte o tempo. Não me perguntem como eu sei. É algo que acontece na minha cabeça, como falar idiomas que nunca falei. Ou saber de notícias que nunca li. Veio tudo no pacote que os ETs me deram. Esses caras cinzentos, que chamam a si mesmos de Os Mais Antigos, e para quem muitas raças avançadas do universo, inexplicavelmente, babam ovo, me escolheram como seu guri de recados, embaixador e leão de chácara. Eu os chamo de cabeçudos. Quando morri, eles recuperaram todas as minhas memórias e reconstruíram meu corpo, com algumas alterações. Posso carregar um cavalo adulto com um dos braços. Posso vencer computadores quânticos de quadragésima geração em partidas de xadrez penta-dimensional. Posso fazer os cem metros em quatro segundos, sem suar. E não envelheço.

Também posso citar qualquer texto escrito até os dias de hoje. O problema é que não existem “dias de hoje”. Não aqui, nesse lugar que os cabeçudos chamam de o “Não-verso”. Aqui é um não-lugar e um não-tempo, de onde podemos acessar qualquer lugar e qualquer momento da história do universo. E é por isso, e mais um caminhão de coisas, que eles me enviam para todo o lugar, para fazer coisas cujo propósito eu não sei e cuja moralidade me escapa. Dizem que estou ajudando a minha espécie. Será? Há dias em que nem sei mais a que espécie eu pertenço.

“Alfredo, podemos conversar?”, diz Q, o alienígena baixinho e cinzento, de cabeça enorme e imensos olhos negros, dentro da minha cachola. Ele podia ter essa conversa à distância. Mas se deu ao trabalho de vir me aporrinhar, num domingo de tarde, justo o dia em que paro para ouvir Gildo de Freitas e Teixeirinha. Bom, aqui não é realmente domingo. Mas deve ser domingo em algum lugar.

─ Abanque-se patrão ─ Eu aponto para a cadeira, toda branca, como de resto todos os móveis daqui, que acaba de brotar do chão─ Vai um mate? ─ Ofereço-lhe a cuia, com a erva perfeita. Perfeita demais, como tudo neste lugar.

“Alfredo, eu não sou seu patrão”, diz ele, recusando a gentileza. Ou pode ser incompatibilidade enzimática. Vá saber.

─ Buenas, eu trabalho para vocês faz quase cem anos. Sem fim de semana, feriados, sem décimo-terceiro. Patrão é pouco. Eu sou é propriedade de vocês

“Isso não é verdade. Você tem livre arbítrio”.

─ Sim. Um livre-arbítrio que não posso usar. Tenho que suportar dor e miséria diante de mim, ao longo de toda a história humana, sem poder fazer nada. Fome. Miséria. Carnificinas hediondas. Massacre de inocentes. Mas tudo o que faço é intervir em minúsculos detalhes sem importância, por que assim querem vocês, meus mestres.

“Alfredo, você não entende as implicações de seu trabalho. O que você faz é vital para a sobrevivência de sua espécie”.

─ Vital? Mover a história míseros nanômetros para longe de seu curso? Que diferença faz se a bastilha caiu 14 ou 15 de julho? Que diferença faz salvar um único sujeito que estava na terceira onda de desembarque no Dia D? E para quê? Para que ele possa continuar a matar ou morrer enquanto marcha para Berlim? Eu estou farto disso. Libertem-me. Ou acabem comigo de uma vez. Eu e a Cremilda não vamos à parte alguma, nunca mais.

Cremilda é o nome que dei à minha Kombi. Um modelo de luxo, 1963, customizada. Pintura bicolor azul celeste e branco. Quando eu era vivo, digo, em minha existência natural, ela foi mais que um carro. Foi meu ganha-pão e o carro da família. Por algum motivo, após me reviverem, os cabeçudos a reconstituíram, átomo por átomo. E foram mais longe. Eles a fundiram com outra Cremilda: Uma capaz de viajar no espaço-tempo e entre universos paralelos. Fizeram um tipo de macumba. Um tal de entrelaçamento quântico, levando ambas para o início da história do universo e unindo as partículas do automóvel com as da nave transdimensional, no momento exato em que elas estavam sendo criadas. E o resultado ficou loco de especial. Consertaram até aquela mangueira de combustível, que vivia pegando fogo.

“Você precisa entender que cada ação ou inação, por mínima que seja, tem implicações gigantescas a longo prazo”.

─Tá me tirando pra budista, cabeção? Eu sou devoto de São Cristóvão, ô bagual!

“Eu pensava mais na terceira lei de newton. O tecido do espaço-tempo, como você sabe, tem uma certa resiliência. Ele pode ser deformado, dentro de certos limites, por mudanças na linha de tempo e, ainda assim, voltar a ser como era. Ou quase. Mas há limites para essa resiliência. Por isso, precisamos de você. ”

─ Por quê?

“Porque, apesar de todos os melhoramentos com que nós o dotamos, você ainda é, essencialmente, humano. E é do que precisamos. De reações humanas ao que não sabemos. ”

─ E há algo que vocês não saibam?

“Claro. ”

─ Por que Cristo não respondeu a Pôncio Pilatos quando ele perguntou “o que é a verdade?” ─ Arrisquei.

“Porque a senhora Pilatos interrompeu a conversa, furiosa por Pôncio ter trazido trabalho para casa.”

─ Era para eu achar engraçado?

“De modo algum. A senhora Pilatos ficou com um humor do cão por todo o fim de semana. Pôncio teve que dormir no alojamento dos centuriões da Fortaleza Antônia por dois dias seguidos. Mas isso não vem ao caso. Você quer uma chance de exercitar seu livre arbítrio? Ei-la: Bretanha, alta idade média. Quero que você vá até essa vila e faça o que tiver que ser feito”, disse ele, me mostrando um holograma flutuando diante de nós. O lugar era um amontoado de cabanas com teto de palha e lama por todo lado.

─ Sem “coleira”?

“Coleira” é o nome que dei ao modo como me controlam. Se eu tentar desertar ou ficar fora mais de 24 horas, meu sangue ferve, começo a sufocar, e tenho a sensação de que vou morrer.

“Sem coleira”, diz ele. Veremos.

Perambulei pelo lugar, durante dias, disfarçado de menestrel, com minha réplica de alaúde, cantando versões de “Coração de Luto” e “Canto Alegretense” em Celta. Todos odiaram. Cheguei a levar boladas de lama do público. Vocês sabem. O novo mundo ainda não foi descoberto. Logo, nada de tomates.

Até que o dia do torneio chegou.

Justas. Combates montados entre cavaleiros. Não do tipo que vemos nos filmes. As armaduras eram toscas. E os cavaleiros, mais ainda. Me misturo ao público. Nada parece destoar do normal.

Então, acontece.

Um dos combatentes está bêbado, quase caindo da cela. Sua lança errará o alvo. Na velocidade e no ângulo em que está, atingirá um menino de uns dez anos, que se espreme contra o cercado, no meio do público. Disparo para o meio da pista e fico entre os combatentes. O cavaleiro sóbrio detém seu cavalo. O bebum, não. Quando a ponta da lança se encontra a menos de um metro do peito do guri, eu tiro a arma do caminho, arrastando junto o sujeito que a empunha, e fazendo com que ele caia no chão. Felizmente, o cavalo nada sofre.

O sujeito é banido dos jogos por colocar o público em perigo. O povo me trata como herói. Começam a ouvir minhas canções e, mesmo odiando, não jogam coisas em mim. Meu Deus. Como eu precisava disso.

Dois dias depois, ninguém mais se lembra do que eu fiz. Volto a levar boladas de lama na cara. Minha curta carreira de menestrel acabou. Hora de voltar para aquela clareira na mata, embarcar na Cremilda e deitar o cabelo. Mas o tal guri virou uma sarna. Me segue o tempo todo, para cima e para baixo. Não posso ativar a camuflagem holográfica de meu traje. Não posso sequer ir ao banheiro. O piá não desgruda do meu pé.

No caminho, ele para diante de uma rocha ao lado da estrada. E olha para ela, pensativo, mais pensativo do que qualquer um poderia ser na Bretanha da alta idade média. Me aproximo e percebo que o motivo de tanta contemplação é um pedaço de metal oxidado, recoberto de pátina verde, ou como dizem na minha terra, “zinabre”. A coisa parece estar presa numa fenda na rocha.

─ Você quer muito isso daí, não é? Pois então, tome ─ Digo eu, arrancando a coisa e entregando-a nas mãos dele ─ E não precisa agradecer.

Ele não agradece. Fica só me encarando com cara de bunda, em silêncio. Mal-educado!
Dou as costas ao guri e sigo meu caminho.

***

─ Bem. Não mudei o mundo. Não acabei com a fome, nem com a guerra, nem colaborei com o fim da pobreza, mas me sinto bem. Eu salvei uma criança. E isso está de bom tamanho para mim.

“Há algo que você queira acrescentar?”

─ Eu acho que é só isso.

“Ótimo. Você tem três dias de licença prêmio, a serem gastos onde quiser”.

─ Me ocorreu que eu nunca aproveitei minha juventude como gostaria. Acho que vou para o Taiti, um mês antes do Capitão Cook chegar e avacalhar tudo.

“Tente deixar algo para Cook avacalhar, está bem?”

***

Diacho. Eu fiz quase tudo certo. Tenho certeza disso. Corri rápido pra caramba, mas dentro do humanamente possível. A lança daquele pau d’água era longa o bastante para que um leve movimento, perto da extremidade, bastasse para derrubá-lo. Puro Arquimedes. Não havia nada de mais nisso. Mas, quando eu estava embarcando na Cremilda, pronto para cair fora, ouvi aquela gritaria vinda do meio da estrada:

“Artur conseguiu! Artur Conseguiu! Ele arrancou a espada da pedra! Ele é o verdadeiro rei!”

Peraí. Espada? Que espada? Tudo que vi foi um pedaço de ferro e bronze muito mal modelado. Tosco mesmo. Três dias no paraíso. Sol, peixe assado, água de coco. E preguiça. Eu mereço isso. Ninguém vai tirar isso de mim. Não mesmo. O importante é ter uma atitude positiva. E cara de pau. Muita cara de pau…

Esse conto é um dos prelúdios do livro “Onde Kombi Alguma Jamais esteve”, lançado em outubro (2019) e se passa aproximadamente 500 anos antes do romance. Foi o vencedor do terceiro desafio SciFi BR do wattpad.
O livro pode ser conseguido junto ao próprio autor pelo e-mail: gilsonlcunha@gmail.com, na Amazon
ou na página do facebook:
https://www.facebook.com/Onde-Kombi-Alguma-Jamais-Esteve-Livro-162066011270803/

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