Resenha: Labirinto Digital (Por Vitor Gama)

Um frequente mal-entendido em relação à ficção científica é a associação do gênero com a existência de um poder de predição. Porém, a FC fala do presente e se em alguns momentos há uma coincidência com o futuro imaginado, é por o escritor ter captado situações potenciais que já existiam no presente da obra. Entretanto, há aquelas obras que te fazem duvidar se a FC não teria, no mínimo, algo do profético.
É o caso de Labirinto Digital de Mario Kuperman (2005). Para exemplificar, a obra fala de políticos fraudando o processo eleitoral com o objetivo de explorar e destruir a floresta amazônica. Há também ministros malucos da educação que “preferem dizer amém” e cortam o orçamento de pesquisa. Enfim, cito 17 trechos para que o leitor possa tirar as próprias conclusões:

  • Para o governo, o ideal é reduzir nosso discernimento, ao cidadão só cabe dizer sim ou não. (p. 21)
  • Meu irmão trocou as terras da família por este posto de gasolina. Fizeram de nossa fazenda uma imensa buraqueira, e o dinheiro do minério foi todo para o governo. Eles forçaram o negócio, agora querem tirar o posto que foi dado em pagamento! (p. 20) Amanhã o Congresso Nacional votará o projeto que trata das concessões a particulares, para venda de combustíveis no varejo. (p. 21)
  • Dentro de um mês irá à votação um projeto sobre a exploração da cobertura florestal. No sul, há gente querendo derrubar mais florestas. No norte, a opinião pública está mobilizada em defesa da preservação. (p. 36)
  • –A televisão então vacina o espírito das pessoas? –Pelo contrário, reduz as defesas. Fabrica crédulos, incapazes de questionar.
  • O rapaz fala na campanha para que a legislação florestal não seja modificada. — A imprensa aderiu, os artistas, boa parte dos políticos. A proposta do governo vai perder feio! (p. 52) [Fala de um ativista]
  • –Foi esse invento que trouxe as indústrias eletrônicas para Manaus. A manipulação de componentes requer temperaturas controladas. Graças a nossas pesquisas, foi possível eliminar um dos insumos que mais pesava no valor da produção. –Sacode a cabeça, desconsolado. –Agora colocaram na direção do Centro um homem sem altivez, viciado em dizer amém. (p. 55) [Fala de um cientista]
  • –Chegou um emissário de Brasília – diz o doutor Adolfo. –Virá nos visitar amanhã. Estão impondo cortes drásticos no orçamento. […] –Gente míope, não enxerga um palmo adiante do nariz. Interrompem programas, sem avaliar o prejuízo que isso causa. (p. 56) [Falas do mesmo cientista]
  • Os setores retrógrados voltaram a apelar para os militares. Afinal de contas, sempre tinha sido assim, os guardiães da ordem chamados a intervir quando a hegemonia das elites estivesse em perigo. (p. 81)
  • A fragilidade do poder civil explica não só as atribulações da vida política, mas toda uma revolta contra a ordem vigente, uma desconfiança em relação ao governo e, pior, a suspeita de que todo governante é movido por interesses escusos. Somos um povo trapaceado, e o ceticismo é um excelente caldo de cultura para os inimigos da democracia. (p. 83)
  • –Neste Brasil, a lógica morre um pouco a cada instante. Aqui é preciso ser teimoso para confiar na razão. Os que tentam interpretar o caos reinante, arriscam botar fogo na mata que nos abriga. Estamos em um cipoal de incertezas e, para sobreviver, é preciso saber curvar a espinha, enrolar, aos outros e a si próprio. Acontece que agora a racionalidade vem montada no lombo das máquinas, não há como escapar. Desconfio de gente que quer desacreditar o trabalho dos computadores! (p. 83)
  • Engana-se quem pensa que o nazismo morreu, que o fascismo é coisa do passado. Os ovos estão lá, à espera de novas condições para eclodir. Sempre haverá grupos que pretendem fazer da sociedade um músculo único, buscando um objetivo único e necessariamente guiados por um único homem. (p. 85)
  • A lei florestal vai ser a disputa mais importante dos últimos tempos — ela diz. — Seria bom se marcasse uma tomada de posição radical. Os políticos querem saber a opinião do povo, mas sempre acabam por decidir segundo as suas conveniências. (p. 111)
  • Perplexo, supõe que gente do governo pode inflacionar os televotos, como manobra pré-eleitoral. (p. 121)
    O governo quer unificar as identidades, de pequeninos torcer todos os pepinos, e assim eliminar qualquer ameaça das dúvidas e dos questionamentos. Recusando os variantes, acabarão por abolir o espaço das diferenças. O televoto poderia ser uma arma capaz de corrigir rumos, como um imenso grito coletivo. Mas, para tanto, deveria estar livre das manipulações dos políticos, obrigando-os a obedecer à vontade popular. (p. 124)
  • Vista de Manaus, a questão preservacionista ganha relevo. Até eu, que nunca liguei para o assunto, me sinto afetado. Agora percebo como, para alimentar o apetite insaciável das grandes indústrias, o governo atropela anseios populares. (p. 128)
    Amigos de Jorge descobriram que o cartel da celulose está financiando a campanha eleitoral. Continuamos à procura de material que sirva para comprometer o candidato pilantra. Agora temos notícias do seu envolvimento em jogadas escusas, mas é preciso mais que isso para derrubar o figurão protegido pelo governo. (p. 138)
  • A essência do governo é o autoritarismo. Temos que fazer marcação cerrada, questionar a cada instante. Com sua arrogância, acabam de decretar a devastação da Amazônia!

É claro que a obra não se limita a estes temas, ela tem mais nuances do que faço parecer. Apesar de certos momentos em que a trama parece se perder (como no romance de Jorge e Eleonora), a temática principal é instigante. Basicamente, Labirinto Digital questiona: o que é realmente a democracia? E por esse motivo é muito atual.
Quanto ao poder de previsão, o que acham? Não tenho certeza, mas se a FC realmente tiver esse poder, então solicito àqueles escritores que estiverem lendo, apenas isso: Favor escrever uma obra em que um personagem Vítor ganha 5 vezes a mega-sena. Não é nem uma extrapolação muito improvável, como bem lembra o grande deputado federal João Alves de Almeida, que ganhou 200 vezes na loteria. Um verdadeiro homem de sorte.

Referências:
KUPERMAN, Mario. Labirinto Digital. São Paulo: Marco Zero, 2005. 

Um pensamento em “Resenha: Labirinto Digital (Por Vitor Gama)

  1. Ainda não li “Labirinto Digital”, mas depois dessa resenha vejo muito sentido se alguém desconfia de seu poder premonitório. Uma pena é ainda não termos a sensibilidade/inteligibilidade que o autor teve em 2005 pra assumir que o nosso presente, ainda que em parte, pode sim nos ajudar a melhorar o que está por vir. Um Salve à Literatura e seus tantos poderes! 🙂

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